ACORRENTADOS

        los_amorosos

“Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.”

trevinhos.gif

Este texto de PAULO MENDES CAMPOS (o meu cronista, frasista, e homme-orchestre preferido), eu sei, é conhecido por todos e mesmo quando eu o publiquei pela primeira vez em 2001 – alguns já o haviam descoberto. Em 2002 já era uma febre nos blogs:-) Que bom! Por isso, perdoem-me se o repito aqui.

Eu o devo a meu amigo César Miranda e mesmo que todos já o conheçam, é uma bela reflexão para a noite de sábado e o domingo. E todos os dias, por que não?;-)

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Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

11 Responses to ACORRENTADOS

  1. Eduardo says:

    Meg,
    Paulo Mendes Campos, um cronista que gosto muito de revisitar. Desse seu texto postado a carapuça me chega ao pescoço.
    Obrigado pela dica do Cesar!
    Beijos.

  2. aninhapontes says:

    Verdade, muito bonito.
    E eu acho que sou presidária da ternura.
    Bom domingo, e muitos sorrisos prá você hoje.
    Beijos

  3. Meg,obrigado pelo presente nesta manhã de domingo. Aliás, presentes pois abrí meu e.mail do ig.com.br e comecei o dia lendo palavras carinhosas e especiais de tí. Acreditei em tudo alí escrito e vou seguir à risca. E serás a primeira a receber o livro autografado(demorará algum tempo mas chegará). Pedí teu comentário pois queria uma opinião profissional. Recebí um presente para o coração. Guardarei o e.mail depois de impresso junto àquelas coisas das quais não nos desfazemos por nada.
    Um beijo grande e que este dia para você seja o mais feliz!

  4. Magaly says:

    É, Meg, O PMC sabe dizer as coisas e como! Agora, nesta transformaão de minha vida, vejo-me em muito do que ele fala ali. Difícil a quebra , a corrente cinge, restamos atados a essa tecitura terrena e só a reflexão nos acode. Uma reflexão pra todos os dias, como diz voc~e.
    Beijinhos

  5. denise says:

    Ainda tenho muito que caminhar… mas estou caminhando… devagarinho eu chego lá. Obrigada , Meg.
    beijo, menina

  6. William A. says:

    Quem não é prisioneiro, que atire a primeira pedra, não em mim lógico!!!!

  7. Alvaro says:

    Adorei o texto, o qual não conhecia e peço licença para copiá-lo e publicar no “Volta Meg” que está no ar novamente, inclusive com uma pequena homenagem a vc. Beijos

  8. Lindo e o que é mais: verdadeiro. César, é? Não surpreende.

  9. Maria Elisa Guimaraes says:

    Queridos, perdoem a falta de tempo, logo para mim, que adoro responder a cada um dos comentários.

    Hoje, parece que não dá:-(

    Então , um beijo para todos, e obrigada: vocês fazem os mais belos comentários da blogosfera inteira!!!!!!
    Ueba!!!!

    Beijos
    Meg

  10. Maria Elisa Guimaraes says:

    Álvaro:
    lembra desta música?
    “corujinha, corujinha
    gosto muito de você”?
    Pois eu não tenho mais no meu coração como colocar um lugar especialíssimo para você.
    Beijos e obrigadíssima.
    Volta Meg, me lembra de um tempo em que não podis blogar.
    Valeu e muito. Vc é o máximo:-)
    Beijos a mais.

  11. Maria Elisa Guimaraes says:

    # William A. Says:
    March 25th, 2007 at 10:03 pm e

    Quem não é prisioneiro, que atire a primeira pedra, não em mim lógico!!!!

    RESPOSTA:

    Mas é claro!
    William, adorei seu blog, arte de cartões postais.
    Tenho coleções imensas.
    Rrrrecomendo seu blog.
    Seja bem-vindo ,. SEMPRE!
    Sinta-se em casa.
    Um abraço
    Meg

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