ONTEM FOI O DIA DA POESIA

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Como sabem, eu estou sempre num fuso horário 24 horas atrás. Desculpem.
Nesses dois dias tive imensas saudades de vocês. E obrigada pelo carinho.
Agora, para vocês, para nós, melhor dizendo, um poema que é das coisas mais belas que já li.

Olhem aqui, prestem atenção, a minha (ambiciosa) idéia em meus blogs, sempre foi a de apresentar coisas novas, ou pelo menos não repetir sempre as mesmas coisas….(embora, claro eu repita sempe o que mais gosto!),
Eis então, o poema para celebrar o seu Dia:

SÚMULA

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. Laszlo_nagy
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

– Era uma casa – como direi? – absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
– Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
– Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta – como
direi? – um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

– Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
– Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

HERBERTO HELDER (Portugal – Funchal – Ilha da Madeira, 23/11/1930)
Trata-se de um poeta máximo. leiam aqui sobre ele.

InOu o Poema Contínuo“,

Ilustração de Ruth Bernhardt (minha escolha, completamente aleatória)
(leiam e releiam e depois me digam o que acharam)
Beijos para ustedes;-)

P.S. Existe uma antologia de poemas de Herberto Helder, no Brasil, com o título “O corpo o Luxo a Obra” selecionada e apresentada por Jorge Henrique Bastos, um dos mais cultos brasileiros, e a editora é a Iluminuras. S. Paulo, 2000.

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Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

16 Responses to ONTEM FOI O DIA DA POESIA

  1. Alma says:

    Estou com Obra Completa, do João Cabral de Melo Neto na cabeceira da cama, Meg…

    Beijo carinhoso

  2. Magaly says:

    Meg,Meg, que homenagem maiúscula! Li o poema com profundo respeito. O poeta é realmente o POETA
    Um alívio para a minha ignorância, uma água fresca para amenizar a necessidade dos que não conhecem , como eu, aqueles que fazem a diferença.. Não consegui ler todo o artigo sobre ele.
    Amanhã de manhã, com a vista menos exigida, tento ler o que me faltou , como farei outra leitura do poema. Nem posso sair prometendo coisas que estou agora com milhões de preocupações e compromissos. Mas vou tentar. não posso deixar passar este exercíccio de aprendizagem.
    Foi muito bom este post, informativo e portador do que é definitivamente imperdível.
    Beijos .

  3. Maria Elisa Guimaraes says:

    Puxa, Almaaaaa!
    Se vc tivesse me dito, eu ..eu ia postar o João Cabral (Um poema do sevgundo volume – que livro lindo não, não é?) a gente podia fazer uma dobradinha:-)
    :-(
    beijos e próximo ano…21/03

  4. Eduardo says:

    Meg, li, e não vou mentir, não reli, porque coisas assim vão direto para o coração, e relendo ele pode regorgitar! Mas vou falar do que entendo: sua escolha aleatória foi maravilhosa: Ruth Bernhardt, esta anotado.
    Bastou falar que o nosso amido D D , estava desanimado de postar, que ontem colocou dois post. Vá ver, e os meus comentários. E não fique brava comigo! Bjs.

  5. A imagem é realmente linda! Perfeita para o texto.
    Agora o poema, este mostra bem a confusão, o misto de alegria, espanto o querer entender sentimentos que provoca o amor, este só bem falado, ou bem escrito pelos poetas.
    “Por vezes tudo se ilumina”, ” Por vezes canta e sangra”,olha só que bonito isso.
    Beijos querida.

  6. Eduardo.
    Como é um poema-fluxo, e-nor-me (alguns chama a poesia de colocar letrinhas) eu sempre sugiro que leiam vezes repedtidas.

    E Aninha, que coisa linda: o Herberto Helder é realmente o Poeta que não entrtém, ele nos arrasta para essa “confusão”.
    Poesia não é notícia, não contar ua história, mas esse senimento que vc tão bem captou.
    Oba!!!!! Oba!!!!!!

    Um beijo para todos – OBRIGADÍSSIMA – e agora que vou dormir.
    M.

  7. Meg, agora que cheguei vc vai dormir? Nossos fusos horários estão confusos. mas não faz mal.Vim correndo lá da praia de Ibiraquera e vc sabe de Ibiraquera a Mongaguá são muitos quilômetros, aí dei uma paradinha para tomar a água de côco. Por isso, o desencontro.
    Bom, enquanto vc descansa o teu soninho merecido a gente posta.
    A poesia de Herberto Helder é forte, arrebatadora e a suposta confusão são apenas as palavras fundindo-se umas às outras, soldadas à base de emoção e sentimentos. Coisas da poesia e dos poetas, esses seres lunáticos, loucos e necessários. O que seria de nós comuns mortais sem os poetas e suas loucas poesias? Secaríamos, com certeza.
    Um beijo
    (ps: aguardo um comentário teu na minha Série: A Firma, por lá postado. Faz isso para mim?)

  8. Dudi says:

    Estou sonhando?

    E não estamos todos, querido Amigo? o Quijote diria que sim e Shakespere também.
    Obrigada, obrigada!
    E um beijo.

    P.S. Toda orgulhosa.

  9. Jorge A. S. says:

    Meg,

    não adiro facilmente a esta onda dos dias mundiais. À partida, um dia mundial da poesia faz tanto sentido que um dia mundial da mulher…mental tags com as quais vamos aplacando a má consciência; todos os dias deveriam ser sincronicamente da criança, da mulher da água… e da poesia, etc.

    Mas Meg, quando me esgrimem com textos deste talante e muito em particular deste poeta, eu meto a viola do meu radicalismo anti-efeméride no saco e ponho-me em sentido…bela escolha, HH é, num país que conta com um punhado de poetas maísculos, um autor que explora como ninguém os alicerces ocultos e a potência genesíaca do português e como tal é “fundamental”…

    Abraços.

  10. Maria Elisa Guimaraes says:

    Jorge, sem elogios vazios, com a sinceridade que há em mim, digo-lhe que não só concordo, como também acredito que HH ficaria muito satisfeito, e poucos diriam melhor e com mais propriedade.

    ===
    Acontece, Jorge, que já passei dessa fase em que *detestava* os dias disso ou daquilo, . Comecei a perceber que uns são perfeitamente dispensáveis e, não raros, perdem-se na maré do comercial.
    Cheguei a ver o outro sigmificado deses dias: e no Brasil, principalmente, mais que nunca é necessário que TODOS OS DIAS sejam de POESIA e ARTE, e que sempre que houver possibilidade chamar bastante atenção para a Poesia, a Grande, a verdadeira. Hoje, que “todos pensam” que a fazem e a conhecem, e na medida em que proliferam, mais fraco se torna o seu valor, e esquecem que somos todos e cada um, “um ser todo LINGUAGEM”.
    Obrigada pela sua vinda.
    Um forte abraço e um abraço para você que é Poeta e sabe o que faz.
    Meg

  11. denise says:

    “Ah, pensar com delicadeza,
    imaginar com ferocidade.”

    Bem sturm und drang!, não é? Amei!
    Um beijo grande , menina

  12. Maria Elisa Guimaraes says:

    Chiaro, chiaro, Denise!!!!!
    Considere-se como uma daquelas/daqueles a quem a dedico o poema de H H, mais especialemte.
    Estou indo lá agora, para um beijo por escrito, mais perto.
    Meg

  13. denise says:

    Nossa! Obrigada! Agora mesmo que torno mais drang, hehe.
    beijo,menina

  14. Eduardo says:

    Olha aí!! Viu? Ele pode estar SONHANDO mas apareceu. Aparece para poucos. Lá NUNCA foi! Bjs, feliz que tenha RESOLVIDO.

  15. FC says:

    Espero trazer alguém para ler este magnifico poema!
    Deixei ligação aqui:
    http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/398512
    Parabéns pela escolha!!

  16. Muito obrigada, Francsco.
    Fico sensibilizada.
    Estive em seu site a apreciar e gostei imenso.
    Esteja à vontade: a casa é sua!
    Abraço
    Maria Elisa.

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