PAULO MENDES CAMPOS

geschenk.jpg Acorrentados” é uma crônica de Paulo Mendes Campos, que publiquei em blog, pela primeira vez no início de 2002. Foi um presente de César Miranda.

Fiquei ancha! Mas logo tornou-se uma febre , bem haja! e todo mundo, o mundo todo, você também conhece. (Ao lado de “O amor acaba” é o texto mais recorrente na Internet.)Acorrentados é muito , muito bonito, profundo e crucial, mas eu queria tentar algo aqui que fosse uma coisa “nova” ou menos “batida” em blogs. O “negócio”, como dizia ele, é que eu adoro PMC e o acho o mais culto, o mais versátil e o mais “jogado na vida”, iiihhhhh, de longe de todos os 4 mineiros do Apocalipse (Sabino, Pellegrino, e como é mesmo o nome do outro?, ora é Otto Lara Resende.)
Voilà:

***Se acaso, por um momento, teu coração, como o de teu pai, ficar vazio, arruma a casa, abre a janela, põe tua roupa nova — para que o vento a caminho, mais uma vez, te arrebate vivo.

*** Fotógrafo de parque faz instantâneo de eternidade.

*** Vinho farto e mulheres limpas consolarão do exílio o estrangeiro.

*** São seis os elementos: ar, terra, fogo, água, sexo e morte. Não, são sete: e lirismo.

*** Sabedoria… a máxima seria anoitecer como um bêbado e amanhecer como um abstêmio.

*** Maturidade é recolocar, em juízo, os dramas do adolescente.

*** Rebeldia é instinto de conservação do entendimento.

*** O diabo da escola da vida é a bagunça do método pedagógico.

*** O bom historiador que escreve mal devia entregar o seu material ao mau historiador que escreve normal.

*** Quase todos vivem em permanente rendição. Os melhores alternam períodos longos de rendição com tumultos libertários. E só os raros vivem em guerra permanente pela independência.

*** A verdade, esta mitômana.

*** O vazio me enche.

*** O grave do homem grave é que ele não está fingindo: é grave mesmo.

*** Fotógrafo de parque documenta para a posteridade o insuportável silêncio do anonimato.

*** Executados os exercícios da dor, os ofícios humanos se arrastam numa gelatina desculpavelmente ridícula.

*** A natureza para ser comandada precisa ser obedecida.

*** Quem jamais foi traído não sabe o que perdeu.

*** O povo é o silêncio. Serei o advogado desse silêncio.

*** O amor amplia o horror da morte.

*** Todo herói acaba chato.

*** Medo. Tem-se. Mas não se deixa ele mandar na gente.

*** Morte Não estou pronto agora, mas, se ela chegar agora, estou pronto.

*** Homem sou: e um bom pedaço do que é humano me é alheio.

*** Mandamento marginal: não tirar ninguém de seu engano.

*** A vida não vale uma crônica.

Paulo Mendes Campos (meu frasista, cronista e homme-orchestre preferido, foi também tradutor e poeta) 1922 -1991 in O ANJO Bêbado.

geschenk.jpgAqui, a sua autobiografia:
PAULO MENDES CAMPOS:
1922 – Semana de Arte Moderna, revolta do Forte de Copacabana, morte do Papa, o rei entrega o poder a Mussolini. Nada tenho com tudo isso: simplesmente nasço.

1923 – Morre o Rui, Stalin assume a chefia do poder soviético, putch de Hitler em Munique. Eu nada disse, nada me foi perguntado.

1924 – Revolução em São Paulo, estado de sítio. Dou para quebrar minhas mamadeiras, após o ato de esvaziá-las. O califado turco entra pelo cano.

1925 – Começo a ver o diabo dançando em torno de meu berço;e gosto.

1928 – Carmona, presidente de Portugal; Hiro-Hito, imperador do Japão. Ganho um par de botinas e durmo abraçado a elas.

1927 – Com o nome de Charles Lindbergh, atravesso o Atlântico pilotando o Spirit of Saint Louis.

1928 – Antônio de Oliveira Salazar torna-se precocemente ministro das finanças portuguesas; perco na Rua Tupis uma prata de dois mil-réis.

1929 – Craque na bolsa de Nova Iorque. Pulo do bonde em movimento na rua da Bahia, esborracho-me no chão, um Ford último modelo consegue parar em cima de mim, e quase não fico para contar a história.

1930 – Revolução: mesmo com fratura dupla no braço, dou o melhor de mim ao lado das tropas rebeldes e, logo após, ao lado das tropas legalistas. Na caixa d’água da Serra leio 0 Barão de Münchausen.

1931 – A Inglaterra deixa o padrão ouro, Afonso XIII deixa o trono espanhol. Eu, Robinson Crusoé, naufrago no Pacífico, chego a uma ilha cheia de ilustrações coloridas e me torno amigo de Sexta-Feira.

1932 – Revolução de São Paulo. Luto na Mantiqueira, tremendo de frio e de coragem; não tenho muita certeza se morro ou não.

1933 – Morre dentro da banheira o Presidente Olegário Maciel. O Padre Coqueiro vem dizer que as aulas estão suspensas por motivo de luto nacional. Viva Olegário Maciel! Fujo da casa paterna, materna, fraterna, mochila nas costas, em busca dos índios de Mato Grosso; regresso ao atingir as terras da Mutuca, hoje subúrbio de Belo Horizonte.

1934 – Hitler é Führer do Reich; eu não sei se sou Winetou ou Mão de Ferro.

1935 – Mussolini ataca a Abissínia; ataco e defendo no time da divisão dos médios como centro-médio.

1936 – Morre George V, viva Eduardo VIII, que renuncia, sobe ao trono George VI. Ganho com alegria o bilhete azul do colégio.

1937 – O golpe do Estado Novo me pega de surpresa, quando subo as escadas da capela do outro colégio para a benção do Santíssimo e uma prática chatíssima de Frei Mário.

1938 – Os japoneses tomam Cantão; no Hotel Espanhol, São João del-Rei, os bacharelandos do Ginásio de Santo Antônio tomam vinho Gatão e recitam um ditirambo de Medeiros de Albuquerque (estava no florilégio do compêndio):
“Bebe! e se ao cabo da noite escura, /
Hora de crimes torpes, medonhos, /
Varrer-te acaso da mente os sonhos, /
Cerra os ouvidos à voz do povo! /
Ergue teu cálice, bebe de novo!”
Foi o que fizemos.

1939 – Começo a guerra.

1940 – Caio com a França. 1941 – Não sou mais eu:
1) sou como o rei de um país chuvoso;
2) sou uma nuvem de calças;
3) sou 350;
4) sou triste e impenetrável como um cisne de feltro.
E assim por diante.

1942 – Atingido pelo mal do século (XVIII), mato-me no Parque Municipal. Meu nome é Werther.

1943 – Venço a batalha de Stalingrado.

1944 – Maquis.

1945 – Tomo o noturno mineiro e me mudo para o Rio, acabo com a ditadura.

1946 – 1955 – Yo era un tonto.

1956 – 1960 – Lo que hé visto me ha hecho dos tontos.

1961 – Subo no espaço sideral, dou uma volta em torno da Terra na primeira nave cósmica tripulada por um ser humano. Depois desço no Bico de Lacre, bar dos mentirosos e sonhadores, e digo:
“O Mundo é azul.”
(P.M.C.)

Fonte: O incansável e também melômano Otacilio Melgaço.

Sobre sub rosa
The most of all things and persons in the entire world drives me *flabbergasted". That includes me.

12 Responses to PAULO MENDES CAMPOS

  1. Maria Elisa Guimaraes says:

    Ei, ei, ei!!!!!
    Ninguém vai comentar aquiiiiii, não?

  2. Júnia says:

    Meg,
    Tive o prazer de ser aluna de um sobrinho de Paulo Mendes Campos, Luis Eduardo Mendes Campos, médico pneumologista, da mais alta estirpe em matéria de conhecimento, cultura e sensibilidade. Aprendi muito também com uma sobrinha neta de PMC, Carmen, também médica pneumologista, competentíssima! Ambos escrevem bem, falam bem – viva a genética!!

  3. Meg, PMC fazia de uma frase, uma crônica!
    E também estou com vc, dos “quatro” o mais talentoso, apesar que Otto Lara Rezende faz uma falta hoje, não?
    Um beijo
    (PS: estás linkada no Perplexo, viu?)

  4. Ery says:

    Acho que perdi o que escrevi…

  5. Ery says:

    Bem, tentarei outra vez…

    “A meu avô Cesário devo este horror pelos cães, o pescoço musculoso, o riso acima de minhas posses, o pressentimento de uma velhice turbulenta

    (…) A minha avó Margarida, a maneira leve de pisar e fechar portas.

    A Minas Gerais, a minha sede, o jeito oblíquo e contraditório, os movimentos de bondade (todos), o hábito de andanças pela noite escura (da alma, naturalmente), a procrastinação interminável, como um negócio de cavalos à porta de uma venda.” [in ‘Meditações Imaginárias’]

    Como não gostar de um cara assim?

    “O vazio me enche”. Apesar do sentido dúbio, é encantador, não é mesmo?

    E “1924 – Revolução em São Paulo, estado de sítio. Dou para quebrar minhas mamadeiras, após o ato de esvaziá-las…” devia ser uma preparação para “Rebeldia é instinto de conservação do entendimento.”.

    Fundamental, sem igual, catedrático. Sem PMC faltariam capítulos na história da literatura desde país.

    Parabéns MEG. O post ficou genial. Abraços.

  6. nora borges says:

    Meg, adoro o PMC desde sempre. Ele era um dos escritores que o Lorde, meu pai, apresentou-me desde cedo. Gostei do post e mais ainda da auto-biografia. Achei a idéia excelente. Imaginei que fatos eu escolheria para marcar pontos chaves da minha vida.
    Acho que vou tentar uma, como exercício!

  7. Ery says:

    meu comentário, depois de postado, relido, reacessado em outra sessão, agora “desapareceu” !! Tem algo errado aqui Meg.

  8. Maria Elisa Guimaraes says:

    Nora, acho, sim não tinha pensado nisso, embora já tenho feito para vários escritores mortos, como por ex Mario Faustino e outros.

    Uma ótima é do Noel Rosa.
    Mas assim o autor fazendo de si mesmo nunca tinha pensado em fazer isso.
    Vc é 10.
    =====

    Ery, eu não disse?
    Eu não disse?
    Eu acho que não são “mutretinhas”, poem ser fantasminhas:-)
    ===

    Ah! Júnia, queria ficar com essa mpedica assim por um dia para dizer tudo, tudo que acho dele.
    PMC, ouça o que lhe digo, devia de ser mais conhecido. Qualquer e toda divulgação para ele é pouca, ainda.
    beijos

  9. O.M. says:

    Agradeço-lhe tanto pelo ‘incansável’ quanto ‘também melômano’.
    Minhas geralistas congratulações,
    Otacílio Melgaço

  10. Joana D'arc says:

    Paulo Mendes

  11. Carolina says:

    Parabéns pela escolha do texto, PMC é um dos meus escritores favoritos, concordo com o fato de que ele deveria ser mais conhecido.
    Abraços e feliz 2008!

    =-=-=-=-=

    Carolina, fico muito feliz com sua visita.
    Sim, creio até que foi um presságio: no final de semana postarei PMC ou Fernando Sabino especialmente para você.
    Um beijo

  12. Carolina says:

    Em tempo, dos 4 mineiros sinto muita falta do Sabino.

%d blogueiros gostam disto: