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Uma vida fabiana

Vidas Secas - 70 anos - Edição Especial Edição especial que contém, além do texto integral, fotografias de Evandro Teixeira que, durante dez dias, percorreu o sertão nordestino especialmente para produzir as imagens deste livro. Publicação prevista para 28/11/2008.

Olá pessoal.

A nossa Meg não está bem de saúde e me pediu que viesse aqui para agradecer a todos vocês, leitores do Sub Rosa e amigos que enviaram seus depoimentos e deixaram comentários durante esses dias de comemoração.

Ela também me pediu para publicar meu depoimento, o texto “Uma vida fabiana” e o artigo “Enxada versus caneta: educação como prerrogativa do urbano no imaginário de jovens rurais” em seu outro blog Textos Especiais.

Fico encabulada, confesso, mas não consegui me escusar: quando tentei falar com ela ontem à noite, não pôde me atender. Assim, antes de irmos aos Textos Especiais, breves explicações sobre os textos.

No início deste ano, ao concluir uma especialização, depositei uma monografia onde procurei homenagear “Dialética do esclarecimento” (1947-2007), obra de Adorno e Horkheimer e “Vidas Secas” (1938-2008), de Graciliano Ramos. Abaixo, seu resumo:

Além de homenagear os aniversários de setenta anos de Vidas secas (1938-2008), romance de Graciliano Ramos, e de sessenta anos de Dialética do esclarecimento (1947-2007), clássico dos filósofos Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, este trabalho é uma análise comparativa entre o imaginário de Fabiano – personagem de Vidas Secas – e o de jovens da zona rural do sul e sudeste do Brasil pesquisados por Maria José Carneiro (1998), para discutir a educação como prerrogativa do urbano no imaginário do homem rural. Através da análise de resultados da referida pesquisa de campo (CARNEIRO, 1998), pôde-se constatar que, tal qual Fabiano, o homem rural ainda percebe a educação como prerrogativa do urbano, tendo as vezes que optar entre sair do rural para freqüentar escolas e universidades ou ficar, se não tiver aptidão para os estudos, ocorrendo, dessa forma, a antinomia do título deste trabalho: enxada versus caneta. Ao mesmo tempo, o esclarecimento está associado à evolução, modernidade e domínio da natureza, visão que é dialética e filosoficamente criticada por Horkheimer e Adorno (1985) na obra também objeto desta homenagem. Este trabalho também enfoca o fenômeno da desruralização em busca de educação e qualidade de vida, políticas públicas de incentivo à permanência no campo e as novas configurações dos espaços urbanos e rurais. Ressalta que o desenvolvimento rural deve ser promovido porque é um direito do cidadão rural, que este deve ter acesso a educação em seu espaço de origem para que não continue a ser forçado pelas circunstâncias a optar entre sua profissão e a educação, ou seja, enxada ou caneta.

Em outubro, para participar de um colóquio internacional de educação, converti a monografia em artigo e, já que precisava resumir o trabalho a um máximo de quinze páginas, retirei a crítica filosófica de Adorno e Horkheimer, mas consegui publicá-la a parte, na Revista Autor, com o título “Uma vida Fabiana” em 01-Nov-2008.

Quanto ao artigo apresentado no colóquio, estou aguardando o parecer – tomara que uma carta de aceite – de uma revista. Assim, pelo menos por enquanto, não poderei atender ao pedido de Meg e postá-lo em Textos Especiais, pois uma das exigências para sua publicação é que seja inédito. Mas vejam como ficou o resumo de seu resumo:

Este artigo [...] adotou trabalho de campo de Carneiro (1998) sobre o ideal “rurbano” dos jovens de duas áreas rurais do sul e sudeste do Brasil e o comparou ao imaginário de Fabiano, personagem do romance Vidas secas de Graciliano Ramos (2006). Tal qual Fabiano, embora desejem educação, os jovens pesquisados a percebem como prerrogativa do mundo urbano, enquanto o espaço rural é visto como lugar de trabalho , tendo que optar entre sair do rural para freqüentar escolas e universidades ou ficar, quando não têm aptidão para os estudos [...].

Em Vidas Secas, vocês devem lembrar, um dos filhos faz uma pergunta à Fabiano e este “vira o rosto para fugir à curiosidade infantil”. Acha que os filhos não têm o direito de saber, porque vão querer aprender sempre mais. O que eles devem aprender mesmo é a cortar mandacaru, amansar gado, consertar cercas… No entanto, já no final do livro, quando mais uma vez fogem da seca em direção à cidade grande, pensa nos filhos “em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias”. É esta antinomia que meu trabalho aborda, comparando-a a resultado de trabalho de campo realizado por Maria José Carneiro, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em 1998. Espero que ele seja publicado.

Meg manda beijos.

Um abraço,

Isabela.

Textos especiais – Uma vida fabiana

11 comments 24 November 2008

Coda – Vivina de Assis Viana escreve…

escritora consagrada, amiga de Ricardo Ramos, o filho do Homem Quando fiz a consulta às pessoas que mais admiro na blogosfera  acerca de Graciliano Ramos, soube logo que seria imprescindível consultar a consagrada escritora Vivina de Assis Viana, que conheci há bastante tempo através dos livros que li (eu e Regina Alves, professora da UFPa e minha melhor amiga) e que como mágica, vi aparecer – um dia! -  em letra e espírito, nas caixas de comentários de vários blogs amigos, em especial a do Lord Broken Pottery.
Enlevada, magnetizada e com a excitação de quem vê um(a) deus(a) do Olimpo se materializar,  escrevi à Regina, e logo iniciamos um contato por email. A freqüência dependia das viagens que Vivina faz grande parte do tempo para a fazenda que possui no interior das Minas Gerais. E, claro, de suas (muitas) ocupações.

Quando enviei as peguntas às quais Vivina respondeu com o estilo elegante de sempre, trocamos um breve comentário. Claro que como sou “saída, apresentada e saliente” , tudo  culminou hoje com a publicação de um texto que Vivina de Assis Viana escreveu  es-pe-ci-al-men-te para o Sub Rosa (conheceram, er…queridos? ;-)

Então, em grande estilo, a coda (excelsa conclusão) à homenagem a Graciliano Ramos, ao seu filho e ao seu neto.  Uma família dinástica.
Fiquem com ela . Primeiro as respostas, o que facilmente se encadeia com o texto especialíssimo.  Obviamente, palmas ao final:-)

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano …
Se você se refere a contato pessoal, não tive, infelizmente não o conheci.
Conheci Ricardo Ramos, filho dele, que entrevistei quando fiz, para o Jornalivro, um trabalho sobre o pai. Isso deve ter sido em 71, 72.
Se você se refere a contato literário, eu o conheci cursando a faculdade de Letras, em Belo Horizonte, anos sessenta. O primeiro livro dele que li foi São Bernardo, que nunca mais esqueci. Até hoje é o livro de que mais gosto, daqui ao fim do mundo.

2-Acha que o texto dele é de difícil leitura (leitura “difícil”)
Não, de forma alguma. Trata-se, isso sim, de um texto elaboradíssimo. De uma concisão e de uma simplicidade resultantes de muito trabalho e muito talento.
Afinal, escrever “fácil” é que é “difícil”.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
O que seria um autor popular?
Ser lido, conhecido pela maior parte da população? Se for isso, não.
Escrever sobre seu povo, denunciar, descrever, lutar com palavras e idéias? Se for isso, sim.
Ser conhecido, lido e respeitado por professores, escritores, intelectuais em geral? Se for isso, claro que sim.
Não, Graciliano não é freqüentemente citado/lembrado, mas deveria. Como sonhar não é proibido, sonho com o dia em que isso aconteça, com justiça e propriedade.

Fui – e sou – amiga da família, sim. Família muito afetuosa, muito generosa quando se trata de sentimentos. Sempre me senti bem entre eles e, como disse, eu os conheci por causa de meu primeiro trabalho sobre o Graciliano.
Quem dirigia o
Jornalivro era o Roberto Freire, que me sugeriu conversar com o Ricardo – que eu não conhecia – sobre o pai. Roberto soube que eu gostava do Graciliano, essas coisas.
Pois bem:conheci o Ricardo na agência McCann-Ericsson , ele era o diretor. Conversamos após o expediente, ficou tarde, ele me sugeriu continuarmos outro dia, na casa dele, à noite.
O outro dia virou outros dias, muitos, todos.
Conheci Marise, a mulher, os filhos Ricardo e Rogério, adolescentes, Mariana, oito/nove. Depois conheci D. Heloisa, pessoa maravilhosa, avó homenageada – com razão – nas histórias do
Caco.(*)
Começamos a conviver, nunca mais paramos. Almoços, jantares, ora em casa deles, ora na nossa, papos sem fim, meus primeiros textos, meus filhos nascendo, visitas na maternidade, aniversários, casamentos dos filhos dele, ah, quanta convivência enriquecedora.
Mais tarde, 78, quando eu estava grávida do segundo filho, Bernardo, fui convidada pra escrever o volume Graciliano Ramos para a coleção Literatura Comentada, da Abril Cultural.
O livro ficou legal, D. Heloisa gostou muito, os afetos cresceram.
Nos anos 80, Ricardo me convidou pra trabalhar com ele na Fundação Nestlé de Cultura, onde ele coordenava a Bienal Nestlé de Literatura Brasileira.
Daí pra frente, você já sabe:
Ricardo Filho, o Caco, começou a escrever, Ricardo pai me mostrou os originais, me entusiasmei, você sabe.
De todos os escritores, Graciliano é o que eu mais gostaria de ter conhecido. ( Entre os cantores, meu sonho tá realizado: conheço o Paulinho da Viola).
Como não aconteceu – ele faleceu em 53, eu tinha treze anos, no interior mineiro – sinto que, através destes descendentes tão queridos, pude conhecer um pouco – ao menos um pouco – mais do escritor talentoso que os livros sempre me mostraram.
Conheci um pouco mais do pai por inúmeras conversas com Ricardo, e por algumas outras, poucas, como Luísa, irmã dele que mora na Bahia, e que eu encontrava em festas, casamentos, um Natal.
Conheci um pouco do companheiro por muitas conversas com D. Heloisa que, sentindo o fervor de minha admiração, contava casos dele, deles, se revelava, me enriquecia.
Conheci um pouco do sogro, e não me esqueço de Marise me dizer que ele queria vê-la vestida de noiva, mas não podia, estava mal, hospitalizado. Pois o casal foi ao hospital, e a noiva foi considerada linda pelo sogro emocionado, que se iria logo depois.”

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Vivina, coisas como essa a gente não consegue expressar, não se abarca com as mãos e nem com as palavras, como disse um admirador de Graciliano Ramos, o J.G.R. o que você escreveu é “puro brilho de estrelas”.

Podria haver conclusão mais bela, melhor, para  um trabalho?  Fico muito honrada e agradecida.  No fim das contas esse trabalho todo foi tecido com o etéreo estado de graça que dominou todas pessoas envolvidas. Eu apenas uni os fios da tessitura.

Todas as flores do mundo para você, e muitas músicas de Paulinho da Viola (preferência nacional, espero) .Obrigada, Vivina.

15 comments 22 November 2008

Vidas Secas, assim dizem…

Capa de edição holandesa, 1998, Coppens & Frenks

Capa ed.holandesa, 1998, Coppens & Frenks


Veja todas as capas e artes gráficas aqui no site: Graciliano Ramos . Diga-se, aliás, que site fantástco. Merece prêmio também. Explore tudo o que há lá.

Acho que foi a  amazing Amazon que lançou esse recurso  não só de pedir aos consumidores que opinassem sobre o produto comprado, mas também  de consultarem os indecisos se as “reviews”, poderiam gerar  outros compradores. Eu acho ótimo,  quando não estou segura da qualidade do que quero. Principalmente eletrodomésticos que, dizem axiomaticamente, é como casamento:  para acertar só tendo *sorte*.;-)
Bem, eu sei o que o texto hoje (?) está ruim, mas acho que vocês estão me entendendo.  Por exemplo,  a Cultura  manda emails pra gente convidando-nos a dar nossa opinião sobre vários produtos que compramos, portanto isso por aqui é conhecido. Abre-se então  um fórum e as pessoas chegam a conversar entre si. Ou até a trocar desaforos. Olha só Desaforos no Forum (Claudio Boczon, essa é sua)

Agora quando o produto é um livro… vejam o que pode sair.
Estes exemplos foram tirados de  uma grande livraria, e eu bem que entrei em contato com as pessoas que emitiram opinião, pedindo permissão para reproduzir. Eu adorei, adoro ler, afinal eu vivo disso, não é?
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Vejam só e depois digam o que acham, OK?
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Animalização
Adriana C. – email@email.com

Exemplo de adequação perfeita entre técnica literária e realidade expressa, o romance “Vidas secas”
exibe, por meio de uma estrutura fragmentada e de uma linguagem enxuta, o isolamento de seus
personagens diante dos limites da sobrevivência. Limites que justamente se revelam na dificuldade de
compreensão e expressão dessa realidade pela palavra. Entre outros aspectos, é esse primitivismo
lingüístico de Fabiano, Sinhá Vitória, e dos dois filhos, que os animaliza, aproximando-os do outro
componente do grupo, a cachorra Baleia. Os seres humanos, comunicando-se precariamente por
fragmentos de frases, balbucios, interjeições guturais, xingamentos, onomatopéias, não parecem
elevar-se do nível do animal que, mesmo sem possuir a faculdade da fala, comunica-se “com o rabo,
com a língua, com movimentos fáceis de entender.”
Nesse sentido, isolamento, primarismo de raciocínio e linguagem, e animalização são as várias faces
concorrentes de uma mesma realidade, aquela que se inscreve nos sobreviventes do drama social e
geográfico da região natal de Graciliano Ramos e aqui expressa por meio de sua genialidade literária.
por Adriana C.

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Péssimo
10/08/2002

César Garcia, – Vargem Grande do Sul , email@rantac.com.br

Livro chatíssimo, se você está cansado de estar de bom humor leia,
assim seu humor vai piorar rapidamente!

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Eu Sou Teimoso! 15/08/2002

Lorêdo F., São Luís – MA , email@globo.com

O nome dele não é César Maia, é César Garcia.
Como pode um sujeito desse afirmar que “Vidas Secas” é um livro chato?
Quem diz uma coisa dessas só pode ser uma pessoa tola, cuja existência é carente de intelecto  e estima pela genuína literatura de qualidade.
O principal livro do alagoano Gracialiano Ramos é simplesmente, meus caríssimos amigos,o maior fenômeno da prosa nacional e estrangeira de todos os tempos. Não tem pra ninguém!

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Opinião não se discute
08/09/2002

L. H S., – Porto Alegre , email@wabstar.com.br
Temos o direito de expressar nossa opinião ou estamos expostos ao ataque pessoal grosseiro e prepotente?
Quanto ao livro, considero-o chato, mal estruturado,
realidade muito artificial e personagens mal definidas e superficiais.

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Quanto absurdo!!!
24/09/2002

Vera M. – São Paulo , email@hotmail.com
Lorêdo… Escrevo êste apenas para deixar meu apoio: CONCORDO CONTIGO PLENAMENTE:
EM GÊNERO, NÚMERO E GRAU!!!!!!
=-=-=-=-=-=-=-
A mudez em Vidas Secas
25/09/2002

Marta C. M., – Vitória da Conquista-Ba , mcardmoura@ig.com.br

Vidas Secas é mais uma extraordinária obra de Graciliano Ramos que deveria ser lida por todos os brasileiros.
A obra chama a atenção para a incomunicabilidade do homem com o mundo e consigo mesmo.
Tal incomunicabilidade dá-se por um processo que podemos definir como alienação cultural.
Um homem que se alimenta do papagaio de estimação (que pouco falava), serve para ilustrar não apenas a condição miserável de vida a que é submetido, mas também como uma excelente metáfora para provar que aquele que não se expressa, que não tem condições de defender-se, também é devorado pela vida.
Fabiano desejava muito ter um espelho.
Metaforicamente o autor nos chama a atenção para o fato de que submetido a condições desumanas de vida e reificado, o homem não consegue ver a si mesmo, sua auto-estima é praticamente nula. – por Marta C. M.

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Clássico
18/04/2003

Leonardo, Recife – PE , email@hotmail.com

Não o considero o meu [livro] favorito.Aliás, é muito difícil ter uma obra favorita quando se fala de Graciliano Ramos.
Se eu escolher Vidas Secas, vou deixar de lado São Bernardo, Angustia, Infancia, Memorias do Carcere e as compilações de crônicas Linhas Tortas e Vivente das Alagoas.
Dificilimo escolher mas posso lhe assegurar que Vidas Secas é de uma qualidade dificilima de se encontrar atualmente. O livro É perfeito.Já li umas quinze vezes e toda noite leio sempre um capitulo
(que pode ser lido separadamente) e não me canso.
É bizarro mas não me canso.O Estilo de Graciliano, nesse livro não tão complexo quanto Angustia,
chega ao seu apice. É impossivel detesta-lo!.Eu lhe asseguro ainda mais: compre esse, não vai se arrepender.

PS: Clássicos estão alem do nosso julgamento.
Só podemos dizer algo que ateste o seu status.O resto? é ladainha.
=-=-=-=-=-
Um monstro
23/07/2003

Rafael, – Fortaleza , email@hotmail.com

Graciliano Ramos não nasceu nem morreu rico. Não frequentou, nem de longe, universidades e academias. Escreveu escassos quatro romances, 3 livros de memória, um de contos (Embora ”Vidas Secas” e Infância possam ser lidos como contos) e um outro que não sei dizer (Alexandre é sarcástico demais para Lit.Juvenil.). No entanto, o alagoano aprendeu (sozinho) e ao mesmo tempo: português, espanhol, italiano, francês.
Na cadeia, arranhou um pouco de Russo. Lia tudo em Francês, amava Emile Zola, Flaubert, Stendhal, os russos(Dostoievski, Gorki, Andreiev, Tolstoi [o maior escritor de todos os tempos, para ele]) e não ia muito com a cara de Machado (preferia mais Aluisio Azevedo, pela firmeza e preocupação social. Também lia muito Machado mas não morria de amores). Esse homem, que vivia trabalhando pesado (tinha vários empregos e morreu ganhando menos do que os própios filhos!) com apenas quatro livros, superou ou ficou ao lado de Machado. Perfecionista, cultor da forma e do estilo- mais sempre com conteúdo.
Um Descartes, que ousou combater Shakespeare (para o velho, Hamlet não tinha uma loucura lógica, até está tem que, para ele, ser lógica).
Vidas Secas não é um marco mas apenas uma obra-prima entre São Bernardo, Infância, Memórias do Cárcere e Angústia. Um livro duro, pesado, mas com um “punch” forte. Dostoievski teria amado.
10 / 10
=-=-=-=-=-=-=

Graciliano Imortal!!
05/02/200

Diogo, – Recife-PE , email@bol.com.br
Coloco Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, entre outros da geração regionalista,
como os melhores escritores que esse país já conheceu!
O livro apesar de áspero e realista, envolve o leitor do começo ao fim.
Romancista de primeira o Velho Graça, como era conhecido nessa sujíssima ABL de hoje!!
Ótimo livro leia esse e aproveite para continuar lendo todas as outras grandes obras desses escritores maravilhosos que eu citei no começo!!

=-=-=-=-=-

Uma obra crítica e sincera
17/07/2005

Vinícius R., – Porteirnha – MG , email@gamil.com
Graciuliano Ramos fala da vida atual, no contexto político e econômico, por meio das metóforas deste livro. É sublime o modo com que se inicia e encerra a obra, mostrando que a vida segue sempre em frente e nada é duradouro…
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Prática de leitura
15/08/2006

Marcio L, RIO DE JANEIRO – RJ , email@uol.com.br
Este é um dos livros mais recomendado.

=-=-=-=-=-=-=
muiuto bom
14/01/2008

RAIMUNDO M. C., açailândia – MA , email@hotmail.com
eu indico esse livro, tem uma otima historia e afinal de contas é excelente

E ah! sim: Vejam a review de BARREN LIVES (título da tradução em inglês para VIDAS SECAS). U-ma coi-sa!

Queridos continuem votando lá na pesquisa e torçam por mim, vou ao médico e volto, tá bom? Digam o que acham, não de eu ir ao médico mas das *quentes, abrasadas” opiniões sobre Vidas Secas. Algumas vão sobre o autor pessoalmente.  E o que que vocês queriam?;-)

Como diz o Jeff Corwin, viram o que eu faço por vocês;-)))

13 comments 13 November 2008

Psiu, podia responder…

Pessoas queridas e lindas, podiam responder, assim fazendo um favor:-)? Brigada. Depois, vejam o vídeo. Ou o inverso, vejam o vídeo e depois respondam.
Ah! olha só: não é ‘pecado’ não ter lido o Graciliano. Leram o texto do Ricardo? E mesmo que não tivessem lido o texto do Ricardo.  Acho que jamais leremos os livros que gostaríamos.  Falo sempre do meu exemplo que comecei a ler gibi, HQ e depois pulei direto pro Kafka.  Eu juro… que malvadeza, por isso que sou assim;-). Só queria ter uma idéia. E acho que vocês também, não é? Amanhã tenho um médico, mas antes passo por aqui.
Adoro vocês e obrigada pelos lindos emails.
Ah e “essa coisa de Graciliano” – como me disse a Céu, pois é essa coisa de Graciliano é como todas as outras do Sub Rosa. Leves, livres, soltas, divertidas e se possível que a gente possa se emocionar.E  Luciana Rayol, a nossa queridíssima amiga (ex- Cintaliga) agora tem o seu próprio portal e, como ela é um (agri)doce de menina:-) claro, tem  seu próprio blog. Ela é fã da Vivina e isso me basta;-)

 

Frase e música do dia:
“Prefeito não tem pai”. G.R.

Update: Continuem votando, OK?. Obrigadíssima.

25 comments 12 November 2008

Graciliano Ramos e ‘Vidas Secas’ 70 anos depois (I)

capa edição original de Vidas Secas

capa original

Publicado em 1938 , pela Livraria José Olympio Editora, o romance  VIDAS SECAS, uma das obras-primas do escritor Graciliano Ramos, lançado provavelmente em setembro, mas comemorado durante todo o ano, já está em sua 106a. edição. Como já se antevia desde o ano passado, pareceu-me justo iniciar as comemorações deste aniversário ,  aqui no Sub Rosa e seus leitores extraordinários, dos 70 anos da 1a. edição,  pelo texto do escritor Ricardo Filho. Ao mesmo  tempo  em que discorre sobre a “cena original”  da descoberta  dos livros,  é uma elegia à leitura , ao ato  de ler  e uma homenagem ao seu Pai, o excelente contista (mas  que não só escreveu contos, como se verá) Ricardo Ramos, e traz num relato comovente sua própria relação com a leitura e a descoberta pessoal da importância de Graciliano Ramos.  Ao longo dos dias, publicaremos  francas, simples e objetivas opiniões  vincando a espontaneidade e  também alguns  dos mais expressivos depoimentos que  testemunham  que Graciliano é não só uma glória da literatura do País: é também um orgulho para quem o lê, e se relaciona com sua escrita magistral.  Depoimentos importantes como o de Rafael Galvão, Fal Azevedo, Stella Cavalcanti, Carlos Eduardo Martins, Isabela Menezes, Magaly Campelo Magalhães, Guilherme Resstom e (muitos) outros que não posso enumerar todos. (Estes também não menos espontâneos). Posso, entretanto – porque não sei guardar segredos meus ;-))) adiantar que o final desta comemoração será com o texto mágico e encantador  da escritora  Vivina de Assis Viana. Precisa dizer mais? Ah! sim… modéstia à parte;-)))

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A DESCOBERTA DOS LIVROS

Ricardo Filho(*)

Nasci um ano após a morte de meu avô Gracilia­no Ramos. Só fui conhecer sua obra depois de adulto. Meu pai, o também escritor Ricardo Ramos, quis que o lêssemos (meu irmão e eu) quando estivésse­mos prontos. Entenda-se isso por quando tivéssemos adquirido o hábito de leitura e fôssemos capazes de identificar, compreender e gostar de um bom texto. Ele achava, com razão, que o velho Graça não era um autor para crianças, nem fácil o suficiente para despertar o interesse de não iniciados.

As minhas mais remotas lembranças estão rela­cionadas com livros. Em casa, lia-se muito. Os velhos cedo encontraram uma forma eficiente de nos envol­ver com eles, através de um artifício inteligente. Era um tempo diferente. Pensem em cerca de quarenta e poucos anos atrás. Na época as crianças tinham horário para tudo, inclusive de ir para cama. Dia­riamente, às oito e meia da noite, quando cantavam na televisão, ainda em branco e preto, a musiquinha dos cobertores Parayba, não adiantava discutir. Em todas as casas, meninas e meninos de pijama e banho tomado dirigiam-se para seus quartos.

Conformados ou revoltados, arrastando ou ba­tendo os chinelos, reclamando o que podiam, após a odiada senha televisiva “Já é hora de dormir…”, levantavam-se e recolhiam-se para o sono diário. Não esperavam mamãe mandar. Meu irmão e eu, porém, gozávamos de um privilégio que talvez mui­tos de nossos amigos não tivessem: podíamos ficar acordados uma hora a mais, desde que em nossas camas, lendo.

Assim iniciamos o hábito de nossas vidas. Abastecidos sistematicamente por papai, sempre preocupado em nos alimentar com o que havia de melhor, rapidamente ampliamos em muito esse tempo dedicado aos heróis imaginários. Aquela hora inicial multiplicou-se em muitas. Líamos sempre que podíamos. Começamos, é claro, com Monteiro Lobato. Reinações de Narizinho foi o primeiro livro que li. Lembro que aos sete anos de idade pedi a minha avó Heloísa, viúva de Graciliano, que me contasse uma história. Ela começou a ler e depois terminei sozinho. A imagem que criei de Dona Benta, por sinal, foi guiada pelos sentimentos que tinha em relação à Vó Lozinha, como chamávamos vovó. O mesmo tipo de carinho, atenção aos netos, disposição para gastar tempo com eles. Eu gostava muito também de Tia Nastácia, admirava a audácia da Emília, era um pouco indiferente à Narizinho e queria ser igual ao Pedrinho. Achava o Visconde meio chato.

Monteiro Lobato durou boa parte de nossa infân­cia. Não se lançavam contra o autor as injustiças que se cometem hoje. Acusações ligeiras feitas a partir de frases sem o contexto de época, bastante diferente deste nosso, do mundo em que vivemos agora.

A nossa formação foi bem ampla. A coleção do Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, chegou numa caixa, parecia um brinquedo. E realmente nos diver­timos muito com aquele homem meio-macaco. São também relacionadas a ele as primeiras lembranças que tenho de cinema. Influenciados tanto pelas aventuras que líamos, como pelo que víamos na tela grande, imitávamos, batendo no peito, o grito de desafio de Johnny Weissmuller.

Júlio Verne fez-nos olhar para o futuro, o contato inicial com um prenúncio de ficção científica. Coração, de Edmondo de Amicis, foi o primeiro livro que me fez chorar, tive um choque, a noção, ainda que intuitiva, de que estava frente a frente com um texto importante. E muitos outros autores: Mark Twain, Jack London, Viriato Correa, Daniel Defoe, Francisco Marins e Alexandre Dumas. O romance A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, foi uma de nossas paixões. Lembro da cara de papai quando nos entregou aquele tijolo, ele tinha a certeza da boa escolha.

Depois veio Moby Dick, de Herman Melville e até hoje, quando vejo o mar, lembro-me da grande baleia branca. Uma autora pouco conhecida no Brasil arrebatou nossos corações e mentes: Laura Ingalls Wilder. Era muito difícil parar de ler as aventuras daquela família de colonos americanos. Nossa hora permitida de leitura antes de apagar a luz rapida­mente foi burlada. Mamãe vinha dar boa noite, nos beijava, e retirava-se, fechando a porta do quarto. Ficávamos um tempo em silêncio. Então acendíamos nossos abajures e continuávamos, bem quietinhos, na casa da floresta, à beira do riacho, ou às margens da lagoa prateada. Era comum vararmos as madruga­das. A manhã várias vezes surpreendeu-nos trazendo o momento de irmos para a escola..

Aos poucos sem que percebêssemos, fomos migrando para obras adultas. Apareceram livros que mostravam o nosso idioma muito bem tratado, os nossos melhores clássicos: Machado de Assis, José de Alencar, José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Mário e Oswald de Andrade e, o óbvio, Graciliano Ramos. Papai, de maneira didática, falava alguma coisa sobre o autor que nos iria apresentar. Um dia ficamos sabendo que existia Ernest Hemingway. Visivelmente admirava aquele escritor mais do que a média. Indicou-nos primeiro O velho e o mar. Hoje, quando olho para trás, penso nos truques de Ricardo Ramos. Publicitário que foi, imagino ter usado técnicas de propaganda para vender o produto livro aos filhos..

O certo é que comprávamos direitinho as indica­ções dele. Quando concluímos Adeus às armas, Por quem os sinos dobram, Ilhas da corrente e Paris é uma festa, deu-se por satisfeito. Tinha começado o ciclo americano. Havia uma certa ordem a seguir. Conhe­cemos então Scott Fitzgerald e William Faulkner. E vieram os russos Turguêniev e Dostoiévski. Guerra e paz, de Tolstói, era a preferência maior de papai, declarada em todas as oportunidades. Mais tarde os ingleses Charles Dickens, Jane Austen, Conan Doyle e Virginia Woolf. Ler os franceses foi delicioso: Os Thibault, de Roger Martin du Gard, preparou o terreno, ótimo início, completado anos depois por Zola, Flaubert, Balzac, Sthendal e Proust. E passamos por todos os gêneros. Difícil escolher o meu livro, o de que mais gostei. Talvez A montanha mágica, de Thomas Mann.

Hoje, depois de percorrer incontáveis páginas. cheguei à conclusão que é fundamental variar. De­pois de uma obra difícil, um policial pode cair bem.. Alternar contos com poesia, romances e ficção cien­tífica, novelas depois de teatro, melhora o cardápio substancialmente. Sempre leio alguma coisa antes de dormir. O hábito vindo da infância nunca me abandonou. Quando estou muito cansado, o sono batendo forte, pego alguma coisa mais leve. Daí a conveniência de se ter alternativas diferentes.

A conseqüência imediata de tanta leitura, na es­cola, foi escrever direito. Tanto meu irmão quanto eu tirávamos boas notas. Minhas redações eram sempre elogiadas. Havia uma professora, em especial, que ao terminar meus textos, lidos invariavelmente em voz alta na classe, o que me deixava encabulado e infeliz, dizia: “Filho e neto de peixe, peixinho é”. Sempre me incomodou essa frase. Pelo que guarda de inverídico, de falso, de injusto. Ouvi, a vida toda falarem em genética. Peguei-me muitas vezes pensando sobre isso. Tenho irmãos que escrevem bem. Minha irmã, temporã, que nasceu dez anos depois da gente, seguiu o mesmo caminho. Tenho tios, primos e sobrinhos com textos publicados. Seria o sangue de Graciliano tão forte assim? Decididamente não. Aceitar essa idéia seria crer no mágico, no sobrenatural, fazer uma análise superficial sobre a realidade. Nada se constrói sem esforço. Quando somos competentes, há sempre uma razão concreta para isso. Ligada à força de vontade, ao estudo, ao trabalho pessoal.

Tenho amigos que se queixam dos filhos. Falam da falta de capacidade dos seus meninos, incapazes de dar sentido a uma frase. Pergunto então se gostam de ler. Não gostam. A resposta está aí. Em nossa família, nascemos e vivemos em casas rodeadas por livros. Gostamos de tudo num livro. Do formato, da textura, do cheiro. Estantes, livrarias, sebos, bancas de revistas e bibliotecas exercem tremendo fascínio sobre nós. Escrever bem, como já disse, é conseqüên­cia. Duvido que a carga sanguínea adiantasse alguma coisa se tivéssemos ficado longe da leitura.

Papai não acreditava em inspiração. Dizia que se fosse esperar a vontade chegar, não teria escrito. Poucos vi serem tão metódicos. Diariamente, de domingo a domingo, sentava-se para escrever. Dizia que era um trabalho como outro qualquer. Hora para começar e terminar, disciplina, planejamento. Com ele aprendi que é preciso estar atento ao cotidiano.

Tudo o que vai para o papel parte de observação. Era comum vê-lo agradecer. Dizia, sorrindo: “Obriga­do, você acaba de me dar um conto”. E corria para a máquina. Se os sons fazem parte de nossa memória, o martelar das teclas de ferro imprimindo as palavras ficou lá gravado para sempre. Ainda hoje sou capaz de ouvi-lo. E buscando no passado a sensação que me provocava, percebo que variava, não havendo um padrão único. Às vezes, um ritmo constante, triunfante, celebrando o resultado obtido, feliz. Espécie de música, os dedos de meu pai dançando no teclado da velha Remington. E então, como se houvesse um impedimento súbito, o ba­rulho metálico cessava por completo. Um silêncio pesado e triste pairava no ar. Segundos, minutos, instantes de incerteza. E o matraquear podia recomeçar cheio de ale­gria, ou não. E aí, como conseqüência da não aprovação do autor, a página corria rápida no rolo de impressão, era arrancada rispidamente do equipamento, e rasgada com resignação. A busca era retomada.

Com muita paciência, dia após dia, vi Ricardo Ramos atrás da precisão, da melhor maneira de dizer o que havia para ser dito, sem nunca perder o rigor, o valor estético,o bom gosto. Essa exigência extremada, na minha opinião, levou-o mais freqüentemente ao conto do que a outro gênero. É fácil comprovar isso. Ele mes­mo tinha essa consciência: “Sou metódico no hábito de escrever. Capricorniano típico, apesar de não crer em horóscopo, gosto de escrever rapidamente a tarefa a que me propus, até para ficar livre dela e começar outra. Não que o texto não seja retrabalhado. Talvez com conto isso seja mais fácil, mais possivelmente finito, do que com romance“.

Muito de que li de papai parecia ser releitura, como se tivesse havido um contato anterior com aquele texto. Por dois motivos: o retrato do cotidiano muitas vezes compartilhado; o fato de em tantas ocasiões ouvir a leitura do texto, em voz alta, para mamãe. Opinião bastante presente, capaz de sugerir alterações e avaliar. O autor sempre anseia por uma resposta, quer mostrar o que produziu, precisa de público. Talvez por isso eu utilize tanto a facilidade de ter um blog. Os comentários são quase que imediatos.

Sempre me perguntam qual obra prefiro de Ri­cardo Ramos. Há nos dias de hoje uma necessidade imediata de classificação. Fugindo um pouco dos contos, sua especialidade, tenho um carinho especial pela novela Os caminhantes de Santa Luzia. Depois de ler esta história várias vezes, percebi que poderia, facilmente, ser filmada. Trabalhei um bom tempo no roteiro. Acabo de concluí-lo.

Convivi com escritores em casa. Gostava de ficar quieto, num canto, escutando as discussões literárias que muitas vezes aconteceram lá. Nas feijoadas de sábado compareciam, com maior ou menor assiduidade, gente como José Paulo Paes, Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira, Ignacio de Loyola Brandão, Raduan Nassar, os irmãos Marcos Rey e Hernâni Donato, Lygia Fagundes Telles, Fábio Lucas, Gilberto Mansur e Vivina de Assis Viana.

Entre as várias histórias que ouvi sobre meu avô, uma sempre é comentada e está entre as mi­nhas preferidas. Em janeiro de 1929, então com trinta e sete anos, Graciliano enviou ao governador de Alagoas o relatório de prestação de contas do município de Palmeiras dos Índios, onde exercia o cargo de prefeito. Esse texto, com muita qualidade literária, chegou às mãos do poeta e editor Augus­to Frederico Schmidt. Impressionado, procurou o autor para saber se ele tinha outros escritos que pudessem ser publicados. O livro Caetés estava na gaveta, aguardando oportunidade. Schmidt rece­beu os originais e partiu, no mesmo dia, para uma noitada na Lapa. Mais tarde, atarantado, percebeu haver perdido aquela cópia. Um ano depois, Jorge Amado, o ilustrador Santa Rosa, José Américo de Almeida, e o intelectual e militante comunista Alberto Passos Guimarães, amigos e admiradores de Graciliano, insistiram na edição do romance, e Schmidt encontrou-o esquecido no bolso de uma capa de chuva. Finalmente, a publicação aconteceu, mas a fama de editor desorganizado ficou.

E então eu estava pronto, resolvi reler Graciliano. O contato com a obra de meu avô foi o mais diferente dos impactos com textos que eu tive. Ele dizia as coisas de maneira tão característica que dispensava assinatura. Eu podia identificar qualquer parágrafo lido, em qualquer lugar, isolado, como sendo dele. Aos poucos, avançando página após página, conse­gui abandonar o orgulho bobo de neto. Consegui analisá-Io como escritor, guardar distância suficiente para ler, apenas ler. E aquele parente do qual ouvira falar a vida toda perdeu o distanciamento e ganhou uma intimidade real. Deixou de ser o avô imaginado, o motivo de vaidade na escola, o herói das histórias que vovó contava, o vovô Grace. Passou a ser o escritor Graciliano Ramos, com a reverência respei­tosa devidamente guardada. Exemplo impossível e possível. A consciência de que ninguém escreverá como ele. O ensinamento de que o texto é para ser trabalhado e retrabalhado. Enxuto. Que as palavras não obedecem ao acaso, há sempre um jeito melhor de se apresentar uma idéia e temos de encontrá-lo, procurá-lo à exaustão. Escrever não é fácil, é penoso e preciso. E então percebi a necessidade de escrever. Procuro, modestamente, seguir os conselhos que Graciliano deu em entrevista concedida em 1948: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar, como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”.

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Ricardo  Filho nasceu no Rio de Janeiro e mudou-se para São Paulo com quatro anos. Neto de Graciliano Ramos e filho do escritor Ricardo Ramos, concentrou sua produção literária em obras de cunho juvenil e infantil. É autor de Computador sentimental, Sonho entre amigos (ambos pela Atual) e O pequenino grão de areia (Paulus).

Texto escrito para a Coleção Brasiliana EntreLivros. © Duetto Editorial.

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Todos sabem  mas não custa dizer de novo que Ricardo Filho  é uma das presenças mais importantes na blogosfera  com o título “brit” – que, realmente,  o retrata: Lord Broken Pottery.

9 comments 10 November 2008

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