SIBILA – POESIA SOBRE TUDO, POESIA

27 May 2008

por Claudio Boczon
(Foco -Retirado daqui)

POESIA, SOBRE TUDO, POESIA


Do poeta Régis Bonvicino - nome importantíssimo quer  na criação literária, na crítica, na divulgação, nos experimentos editoriais e numa verdadeira ‘militância/missão’ incessante de  “bateia”, ou seja a crivar a poesia de valor incontestável  – recebo o material de divulgação de mais um número da bela e especialíssima revista SIBILA  (não conheço um grande Poeta que não saiba a importância da revista e que não leia  a revista.
O nome SIBILA,  uma homenagem, de certa forma,  foi  retirado de um poema de Murilo Mendes(*)-um dos mais importantes Poetas brasileiros em todos os tempos e que merece ser muito mais divulgado. Dizendo melhor, merece ser muito, muito *conhecido*

Ao lado de uma equipe  respeitável  que você pode ler aqui , Bonvicino criou e fundou a SIBILA, cujo  primeiro número  foi lançado  nos Estados Unidos e no Brasil (São Paulo).  Agora, a revista que já possui 11 números impressos. E está on line. Ganho nosso, espero.

 O que importa ressaltar não é exatamente o impacto e a importãncia dessa revista, pois cada um pode ver pela matéria poética e o rico material traduzido.  Importa reconhecer um convite desafiador que a palavra SIBILA engendra: o desafio de interpretar uma nova maneira de dizer o já-dito,  o não-dito, o que é renovo, rompendo a cegueira da familiariedade.
Susan Bee
Susan Bee (Revista Sibila)
 
Sibila é a personagem ( na verdade, pelo menos há seis)  da mitologia grega e da romana que possui o dom da profecia, do vaticínio, muitas vezes enigmático. A Poesia é a arte que carrega  consigo o dom profético e o de ser  morada da linguagem. A poesia é  a linguagem.  Haverá  entre elas um parentesco semiótico e semiológico . Eis um ambicioso projeto. Uma ruptura. E que traz consigo, a crítica, o ensaio, a tradução,  e pricipalmente o olhar voltado para a atualidade atemporal, para o  que é materia de fatura poética.  A ingerência do olhar, da análise e posivelmente a posse, mas sobretudo e sobre tudo, a inovação e o sem limite.

No número 7, a capa, por exemplo, traz MANÉ GARRINCHA,  em outro número Oiticica em um ensaio,  ou ainda em outro,  Miriam Chnaiderman fazendo seu filme sobre José Agripino de Paula.

O que me impressiona  ao lado disso tudo, sem dúvida, é o material iconográfico. A produção fotográfica, as gravuras, as pinturas, tudo isso é de fazer a gente se orgulhar de ter um veículo de expressão. A arte de se fazer arte. Poeticamente.

E a polêmica esquenta, esquenta: sobre  INIMIGO RUMOR a outra revista brasileira, hoje luso-brasileira!

Seguem dois excertos, um deles contido na SIBILA que é uma jóia , uma gema e merece ser lida . massivamente.
Afinal, não há escrita de qualidade sem leitura de qualidade
Este aqui  :

“Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.” 
Oswald de Andrade. Manifesto Antropófago

.
E, claríssimo, a poesia de Mario Faustino, não fosse eu paraense…

≈ ≡ ≈

BALADA

(Em memória de um poeta suicida)

Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sul da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura)
Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-Ihes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência, mas tanta ternura
Cruel foi teu triunfo, torpe mar.
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares – tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!

Envoi
   Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo.
Tanta violência. Mas tanta ternura.

Mario Faustino (1930-1962)

 ♣ ♣ ♣

 ROMANCE

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco da minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena.
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena –

Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte

MARIO FAUSTINO – Poeta brasileiro. Um dos maiores e melhores. Ponto.

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10 Comments Add your own

  • 1. marilia jackelyne  |  27 May 2008 at 8:41 am

    Dear Meg…
    Pois não é que eu não conhecia a SIBILA?? Algo, definitivamente, reprovável…
    Mas como eu não sou nehum grande poeta, tudo bem =)
    Em todo caso, fui lá, li, gostei, linkei e amei um texto sobre o Itamar Assumpção, que figura na milha lista de compositores preferidos.
    Abraços
    Marília

    Reply
  • 2. Mariaelisa Guimaraes  |  27 May 2008 at 2:25 pm

    Hahahahaha!
    Marília: você só me dá alegrias, querida.
    E olhe só: o texto sobre o Itamar Assumpção (de quem já coloquei aqui uma música que ele fez em parceria com a poetisa Alice Ruiz) é exemplar, pois há tanta riqueza de material e de objeto que foi um post que adiei muito este da SIBILA!.;-)

    Quanto a ser “um grande Poeta”, isso foi uma questão estilística. Diante de uma revista como a Sibila quando há tanto a dizer, o melhor seria escrever: Claro que todo mundo conhece… ou até mais simples: Corra para lá, não fique aqui, cada número é um flash;-)

    O filé mignon está sempre por ser descoberto de Oswald de Andrade a Carlos- o Drummond de Andrade por Certo;-)

    E o melhor de tudo: Os poetas podem colaborar!
    Beijos,
    Meguita

    Reply
  • 3. Mariaelisa Guimaraes  |  27 May 2008 at 2:27 pm


    Ah! e tem Leminski e Torquato Neto:-)

    Reply
  • 4. claudio boczon  |  27 May 2008 at 2:40 pm

    Me’godmother,

    Brigadin pelas canjas várias, apesar de que agora fiquei na penumbra, sem foco e sibilando nu com a mão no bolso… ;-)

    Sabe que uma das primeiras lembranças que tenho de quando comecei a capengar nas letras foi a de ter escrito “foco de cem velas”?

    Estava brincando de ler e escrever na mesa da cozinha, a lâmpada queimou, e foi isto que a Donanna pediu para meu irmão trazer da mercearia.

    Pocałunkinhos

    Reply
  • 5. O Réprobo  |  27 May 2008 at 2:58 pm

    Querida Meguita,
    antes do mais tenho de dizer à Marília que esse desconhecimento não só é reprovável, como reprobábel, já que este Vosso amigo também desconhecia a revista.
    Gostei de contactar com a Poesia de M. Faustino, mas estou com a Meg: a iconografia (a avaliar pela capa) é um must! É bom ver que esta «Sibila» não envelheceu, contrariamente ao da colega Profetisa de Cumas, a qual, tendo pedido aos Deuses a Imortalidade, se esqueceu de demandar também a juventude eterna. Tornada, com os séculos, numa massa chupada e mirrada, foi, pela crueldade dos jovens habitantes da cidade, posta numa gaiola e exposta às troças da garotada. Ao que respondia com lancinantes gritos: “quero morrer, quero morrer!”.
    Para acabar, sobre Murilo Mendes, cuja poesia aprecio muitíssimo: Católico convicto, era genro do Historiador Português Jaime Cortesão, um ateu completo que gostava de brincar com a fé do familiar. À interpelação “ó Murilo, não percebo como um homem inteligente como você acredita no Inferno”, ele, desejoso de não desagradar ao pai da Mulher, saiu-se com esta: “não, o Inferno existe, só que não funciona!”.
    Optimismos.
    Beijinho, Querida Amiga, grato por mais este belo post

    Reply
  • 6. Mariaelisa Guimaraes  |  27 May 2008 at 3:08 pm


    Querido Réprobo, não fosse eu já senhora de um harém, e e tendo abandonado a androgamia -portanto a minha religião agora, não permite, pediria para o Réprobo…ah! deixa pra lá;-))))))
    Querido, que magnífico comentário, não que todos não o sejam, mas tocou-me o ponto (ou um dos) pontos fracos.
    O Murilo Mendes, da Maria da Saudade! Formidáveis, os dois!

    Murilo é santo de minha devoção. Um dos meus três poetas de culto.
    (E não por ele ser santo…viu, ó miúda Ana)
    O querido Paulo conhece a poesia que a grande dama Sophia de Mello Breyner Andresen, por certo, mas conhece o poema que escreveu de bate-pronto, quando soube da morte de Murilo?
    Tomara que não conheça pois aqui vai;

    (Ah e antes vou mandar hoje mesmo para o endereço da Ana, uma forma de tomar contato com a poesia única, extremada e de um jovem que moreu aos 32 anos tendo tido tempo para traduzir de Yeats, Hoelderlin e Giacomo Leopardi. e tantos outros -o absolutamente abissal MARIO FAUSTINO.

    Agora , esta para você:
    (De Sophia acerca de Murilo)

    Reply
  • 7. Mariaelisa Guimaraes  |  27 May 2008 at 3:14 pm


    Carta de Natal a Murilo Mendes

    Querido Murilo, será mesmo possível
    Que você este ano não chegue no Verão
    Que seu telefone não soe na manhã de julho
    Que não venha partilhar o vinho e o pão

    Como eu só o via nessa quadra do ano
    Não vejo a sua ausência dia-a-dia
    Mas em tempo mais fundo que o quotidiano

    Descubro a sua ausência devagar
    Sem mesmo a ter ainda compreendido
    Seria bom Murilo conversar
    Neste dia confuso e dividido

    Hoje escrevo porém para a Saudade (*)
    - Nome que diz permanência do perdido
    Para ligar o eterno ao tempo ido
    E em Murilo pensar com claridade -

    E o poema vai em vez desse postal
    Em que eu nesta quadra respondia
    - Escrito mesmo na margem do jornal
    Na baixa – entre as compras de Natal
    Para ligar o eterno e este dia.

    …………..
    Sophia de Mello Breyner Andresen. IN: «Obras de Sophia de Mello Breyner Andresen», n.º 10. Lisboa, Ed. Caminho, 2004.

    ===
    Publiquei este poema em 2005 no antigo Sub Rosa. Nos dez anos após a morte de Murilo, que partiu em 13 de agosto de 1995, s.m.j, ou salvo engano.
    E agora ofereço a si, querido Réprobo.
    E tenho muito orgulho em tê-Lo neste SR.

    P.S Obrigada pela informação – bela e triste e irônica, num certo sentido trágico, sobre a Sibila de Cumas;-) Eu não saberia nunca se não fosse o querido Réprobo. Bonzinho? Sim, hoje especialmente;-))))))
    Um beijo e o coração tocado.

    Reply
  • 8. Nelsinho  |  28 May 2008 at 12:46 am

    Querida Meg,

    Dentre os muitos poetas que povoam os recôndidos do meu PC, estão Sophia (óbvio) e Murilo. Mas não conhecia o poema de Sophia a Murilo…
    …Muito menos a revista SIBILA! É por isso que o teu espaço é serviço de utilidade do povo que ama as letrinhas!
    Ah! Como eu gostaria de poder dedicar 80% de mim à poesia e só 20% a procurar pagar as contas! Talvez daqui por mais um tempinho (Suspiro enorme)

    Reply
  • 9. piano  |  28 May 2008 at 10:21 am

    um verdadeiro prazer ter descoberto este seu espaço….

    .

    encantada.

    .

    abraço cordial.

    Reply
  • 10. O Réprobo  |  28 May 2008 at 12:44 pm

    Oh Meguita Mia! Que bom ver-me dedicado um poema da Sophia, de cuja obra sou admirador! Ela tinha muito jeito para estas coisas, também fez um belo poema quando morreu o primo, Ruben A.

    Ah e estou desolado com esse rigorismo religioso, ehehehehe, perco assim as esperanças de me ver com melhor uso. Mas pronto, a vida é dura.

    Recebeu os meus mails?

    E, para concluir – mas volto logo – estou 100% com o lamento do Nelsinho.
    Beijinho grato e abraço

    Reply

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Shakespeare. Hamlet. Act v. sc. 2.

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